Sento-me à secretária,
Preparo-me para escrever.
Ilumina-me o som da ária
Que ouço. Sem querer,
Perco-me na doçura leal
Da voz que me tem encantado.
Neste momento quase irreal
Toma-me um sentido animado
Que me passa a ter
E a descobrir, silente
Na melodia que, a enriquecer,
Se torna mais e mais dolente.
Estou cada vez mais sóbrio,
Desde o Ser até ao Pensar;
Pode não parecer óbvio
Mas descubro-me a chorar!
Profundamente, consome
O meu ser distante...
Preciso de letras, tenho fome
Dessa cor, murmúrio falante;
Dos livros, almas correntes,
Presas fiéis de um viver
Rodeadas de seres inconscientes
Que se dizem capazes de ler!
Há sempre mais além
Do monte que cerra o finito...
Contemplá-lo é para quem
Sabe ler o que não está escrito.
E tanto há que, na vida,
Não há tempo para, sequer,
Pensar na alma escondida
Que trazemos em nós para ler.
Enquanto o tempo passa
Não conseguimos entender
Que o nosso viver crassa
Para as coisas que dão prazer,
Como a ária que escuto
Enquanto me preparo...
Desaprecie o belo, o Inculto,
Que a arte é o meu amparo!
Mais do que um viver,
É também um sentir.
Negá-la para a esquecer
É negar o nosso Existir!
Deixemo-nos de ilusões
Que todos sentimos o fervor
Dentro de nós, em nossos corações,
Quando a arte se torna amor!
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