23/02/2016

Momento histórico

Saúdo os Deputados do PS, do BE e do PCP pela aprovação do Orçamento de Estado. Faço votos para que este consenso à esquerda sirva para ajudar a melhorar a situação do país e em concreto a qualidade de vida dos Portugueses!

18/02/2016

Encostado às boxes

Temos tempo. Não o tínhamos antes porque há sempre desculpas.
Quando se encosta às boxes, o tempo aparece, por poucos segundos que sejam. Segundos que parecem minutos, horas, dias, semanas ou quanto tempo for necessário para nós. Não para as nossas coisas, para nós apenas.
Enquanto se está encostado às boxes pensamos naquilo que gostaríamos de fazer com o tempo útil em que ali estamos. Certo é que nos apercebemos que o anseio de poder realizar alguma tarefa esbarra nas condições físicas que nos atiraram para ali.
Então... tenho uma ideia. Projecto o que quero fazer! Assim que deixar as boxes, vou acelerar ao máximo e num breve instante realizar as acções que agora traço... e simultaneamente regressar ao labor quotidiano...
Tão cedo me apercebo quão etéreos são os meus anseios. Porquê? Porque afinal só agora tenho tempo para mim. Que estou encostado às boxes... Frustrante.

28/01/2016

Os alentejanos... outra vez...

Um Alentejano, vai a Évora ao médico. 

Durante a consulta pergunta-lhe:
- Doutori … o que é exactamente o Viagra?

Médico: 
- São pílulas, que fazem você ter relações sexuais 4 a 5 vezes por dia...

Alentejano : 

- Aaah ... é um calmanti!?!



(surripiado do facebook...)

14/11/2015

13 de Novembro 2015

Paris.
Podia ser qualquer outra cidade da Europa ou dos arredores longínquos.
Podia, sim, mas não.
Foi Paris, de novo
o centro de um novo mundo
antagonicamente civilizado...



O meu respeito para as vítimas destes ataques terroristas.
Não nos esqueçamos que cada golpe destes é uma machadada na nossa liberdade comum.


16/10/2015

momento

Há no luar
ao fundo
uma incerteza
qual vaga
lenta
rebentando na beleza
dos teus lábios

e a noite desce
e o sol sai
sobe soturno
a lua vai...
...e volta
amanhã
na saudade
de morar mais perto
do que já não volta a ser
falta-me um beijo
que nunca me deste
e nunca vou ter

19/06/2015

Há coisas do camandro...

Há poucos dias a edição online do Correio da Manha saiu-se com a notícia que um jantar para cerca de 300 convidados para apresentar os resultados de um programa de investimento - o PRODER - foi pago com fundos comunitários. E eu fico a pensar...



(http://www.cmjornal.xl.pt/exclusivos/detalhe/europa_paga_banquete_de_portas.html)


Então mas é preciso ir gastar dinheiro dos outros? Não sobrou nada do que foi depositado em 2012 para pagar a jantarada?



(http://www.publico.pt/politica/noticia/106-milhoes-de-euros-em-notas-depositados-por-funcionarios-na-conta-do-cds-no-final-de-2004-1559142)

O Cartoon do Dia

Mais uma vez, brilhante! Neste caso o Henrique Monteiro só se esqueceu de desenhar os outros dirigentes Europeus e do FMI. Deve haver ainda muito espaço naquele penhasco para todos eles.






































Link: http://henricartoon.pt/tragedia-grega-921817

Uma mosca grega na sopa europeia - por Gustavo Cardoso

Deixo-vos um notável artigo de opinião de GUSTAVO CARDOSO no Público sobre a situação da crise na Grécia. A ler no Público. 

"

Uma mosca grega na sopa europeia


Com esta frase Paul Mason terminava o seu apontamento para o Channel4 inglês sobre a situação na Grécia. Aliás, de repente, todos têm analogias para a Grécia, há quem fale de moscas e há quem fale de cirrose, o que não é nada tranquilizante pois pode querer dizer que a Europa é alcoólica.
Todos os que exercem poder na Europa parecem preferir que a Grécia desapareça, pois tudo seria certamente mais simples sem esta grande "chatice" que é ter um "problema grego" – até há quem designe o país como cirrose, levando a questionar se a Grécia é o fígado da Europa e levando a concluir que a Europa é alcoólica em último grau e que, portanto, ou faz uma cura forçada, um transplante imediato ou morre.
Mas também o cidadão normal parece contagiado por sentir que é necessário ter uma opinião sobre a Grécia. "Eles que saiam", li num comentário num jornal online, outros dizem no Facebook  "não vou pagar reformas aos 55 anos quando aqui já vamos nos sessentas".
No fim de contas, como sempre, há desinformação a rodos, lançada pelos próprios intervenientes e muitas vezes mesmo por aqueles que deveriam zelar pela normalidade, isto é, os próprios governantes dos países Europeus e altos funcionários da Comissão.
Nestas negociações não há inocentes em lado nenhum, as posições estão polarizadas e há uma luta a ganhar e ou ganha a Grécia ou ganham os que se lhe opõem. Mas será mesmo assim? Talvez seja mais complicado do que isso.
À primeira vista tudo parece muito claro, há um país que se endividou brutalmente e portanto tem de ser responsabilizado e pagar. Certo? Talvez não. Indo por partes do geral para o particular.
Há várias lutas políticas em campo e depois há a população grega. Não quero dizer que a Grécia é o equivalente à Espanha de 1936 porque é forte demais, mas no campo das ideias talvez seja um bom ponto de partida para fazer umreset à espuma dos dias e ir mais fundo, onde está o que interessa para compreender o que está em jogo.
Em 1936 na Guerra Civil espanhola opunham-se duas forças no terreno, com aliados estrangeiros extremistas presentes em cada lado à direita e à esquerda e outros ausentes, como as democracias europeias. Escolho a Guerra Civil Espanhola porque foi definidora da evolução política dos anos seguintes na Europa tal como me parece que será a Grécia hoje.
Em 2015 não temos guerra com armas na Grécia (ou pelo menos ainda não a temos), mas temos uma guerra de palavras em curso entre duas posições extremadas, a do Syriza e a dos partidos que governaram antes dele (direita e esquerda, Nova Democracia e PASOK e todos os que se formaram após a sua desintegração).
Não vale a pena perder muito tempo com esta parte da história, pois após sete anos de austeridade em Portugal e na Europa toda a gente já teve tempo de escolher lados e assumir-se como Austeritário e apoiar governos que professam essas políticas ou assumir-se como não Austeritário e estar do lado dos que acham que a política deve ser de crescimento e ter austeridade quanto baste.
No entanto, porque o governo grego resolveu desafiar tudo o que se assumiu como correcto de ser feito sob a bandeira da austeridade ao nível político europeu e também na Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, estamos realmente num momento definidor. Ou se começa de novo e se faz um mea culpaparcial, iniciando-se um novo período ou se continuará em frente para o ano sete da era da euro-austeridade.
Hoje estamos já num local muito distante da discussão sobre quem teve a culpa da crise ter surgido, se os governantes, se os bancos, se outra coisa qualquer. Neste momento essa é uma discussão que perdeu relevância, o que se está a discutir é se a solução maioritariamente adoptada na zona euro para lidar com a crise deve ou não continuar a ser a austeridade só por si.
A questão central é que os actuais governos alemão, português ou espanhol, os partidos que fazem parte de coligações no governo na Holanda e Finlândia, bem como ex-governantes nacionais, agora nas instituições europeias, têm bastante a perder se a base da sua política for colocada em causa de forma abrupta com uma qualquer viragem política rápida na Grécia – tanto mais que há eleições ainda a serem feitas em Portugal e Espanha este ano.
Por outro lado, toda a gente já percebeu que instituições como o FMI estão obsoletas, pois não estão estruturadas para lidar com países com moeda única. O que aconteceu durante as troikas foi um exercício de incompetência atroz por parte de executantes que não detinham o saber necessário para lidar com um fenómeno com o qual não se haviam antes confrontado. Uma vez largados no terreno apenas lhes restava continuar em frente para não perder a face.
De algum modo, parte dos problemas políticos actuais com a Grécia advém dessa incapacidade de encontrar uma forma de o FMI não perder a face na Europa para que possa continuar a ter face noutras geografias mundiais.
E quanto à Grécia? São os gregos uns bandidos ou não?
Acho que é bem mais complicado do que isso. Há várias Grécias. Há a Grécia que militarmente é hoje o primeiro bastião europeu contra um possível avanço do Estado Islâmico, agora que a NATO confia menos na Turquia, e que levou um alto funcionário do Departamento de Estado Norte Americano a dizer a um alto funcionário dos Negócios Estrangeiros alemão que "os nossos rapazes não morreram nas praias da Normandia para vocês fazerem o que estão a fazer" com os gregos.
Há também a Grécia de um Estado que foi sempre fraco e presa de interesses dos mais poderosos gregos, que disfarçou a cleptocracia com distribuição de benesses injustificadas a diferentes partes da classe média-baixa à classe média alta, sempre com a conivência de Bruxelas que desviou durante quase três décadas o seu olhar da realidade grega.
Há também a Grécia do endividamento e do sobre-endividamento ao longo das décadas de governos socialistas e de direita, os quais sucederam à ditadura dos coronéis e à guerra civil grega – mas tudo isso já foi há muito tempo e já nada interessa, dirão alguns, mas interessa, é claro que interessa.
É verdade que o governo grego actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos gregos anteriores, assim como o governo alemão actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos alemães anteriores, mesmo indo até ao período nazi. É assim que funciona a responsabilidade dos estados, quando se demonstra que a responsabilidade existe.
E o que acontece quando se demonstra que nos Balcãs, para além de termos tido guerras com limpeza étnica na ex-Jugoslávia tivermos também governos democraticamente eleitos e praticantes de cleptocracia, como na Grécia? Muito provavelmente teremos de olhar de outra forma para tudo isto porque teremos a curto prazo responsabilizações criminais ao nível do Tribunal Europeu e que irão envolver políticos gregos, políticos da Europa do norte e empresários vários – tal como a comissão do parlamento Grego sobre a dívida ilegal confirmou na passada quarta-feira.
Tudo isto é Grécia e tudo isto não é uma mera questão de culpados e inocentes, de bons e maus, da esquerda ser pior ou melhor do que a direita e vice-versa.
É precisamente por isso que importa perceber que há actualmente pelo menos três formas de olhar a Grécia a partir de Portugal. A primeira é "ainda bem que não somos gregos", a segunda corresponderá a algo como "não são gente séria, o governo e muitos deles". No entanto, são duas formas pouco inteligentes de olhar a Grécia. 
A primeira é pouco inteligente porque basta algo mudar para passarmos rapidamente a dizer algo como "pois, nós e os gregos, o que nos havia de calhar, má sorte a nossa" – é o tradicional pela boca morre o peixe. Nada do que se passar na Grécia deixará incólume Portugal, quem disser o contrário pode fazê-lo porque o papel dos políticos é tranquilizar a população, mas no fundo estará, se estiver a actuar bem, a colocar em acção um plano de contingência para minorar os efeitos do que se passar na Grécia.
A segunda forma de olhar a Grécia é, igualmente, pouco inteligente porque também nós temos muitos governos e políticos de quem nada nos orgulhamos e generalizar face aos gregos é o mesmo que dizer que também gostamos de ser gozados por todos aqueles que, pela Europa fora, consideram os portugueses menos europeus do que eles e constroem as várias narrativas sobre as inferioridades dos povos do Sul.
A forma inteligente de olhar a Grécia é perceber que enquanto não mudarmos a actual abordagem política e económica (para uma outra qualquer) estaremos a dizer que achamos bem que, como refere o programa Solidarity4all grego, exista um país onde: 33% da população esteja sem acesso à segurança social e cuidados de saúde; haja um aumento de 40% na mortalidade infantil; cerca de 20% de crianças tenham deixado se ser vacinada; 290 mil crianças tenham ambos os pais desempregados; 17% da população seja incapaz de suprir as despesas de alimentação; 44% da população viva abaixo do limiar de pobreza; ocorra uma quebra de 30% dos rendimentos da famílias;  mais de 50% dos jovens estejam sem emprego; ocorram reduções de pensões na ordem dos 45%; a redução salarial seja em media de 38% e mais e mais.
Se acharmos bem que algum país esteja assim e que a culpa é dos que votam nos governos que elegem e escolhem, que a culpa não está também nas instituições europeias, no FMI e nos nossos próprios governos, estaremos, muito provavelmente, a candidatarmos-nos também a sermos apenas mais um país como a Grécia algum destes dias.
E, na pior das hipóteses, estaremos a dizer que a Europa da euro-zona não tem outro futuro que não seja continuar a viver um pesadelo que serálight numas regiões e muito dark noutras, que não há nada a fazer quanto às desigualdades, que é mesmo assim, que há uns que têm e outros que não têm, há os de cima e os de baixo e ai de quem nasce em baixo.
Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque este governo actual não é feito pelos mesmos políticos gregos que levaram o país ao endividamento que hoje tem.
Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque nem todos os políticos que estão em Bruxelas hoje são os mesmos que comandaram o aumento da dívida e o teste e experimentação de políticas de aprendiz de feiticeiro na Grécia.
Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque o FMI necessita de uma desculpa europeia para limpar a face dos seus próprios erros.
Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque não se pode brincar com a Síria e Ucrânia ao virar da esquina.
As dívidas pagam-se, mas podem pagar-se ao longo de cem anos como os ingleses fizeram após as guerras napoleónicas. Se não dermos essa oportunidade à Grécia vamos todos pagar muito mais caro e não será só em capital e juros, será também em democracia, em liberdades, em vidas e em falta de paz.
Este é um momento definidor e não podemos perder esta oportunidade porque pode mesmo, durante muito tempo, não haver outra.
Ser hoje pró-europeu é acreditar que é possível outra Europa diferente da vivida nos últimos sete anos e que sem resolver os problemas da Grécia não haverá outra Europa. Não há uma mosca grega na sopa europeia, há sim uma oportunidade grega para a Europa.

Professor do ISCTE-IUL, em Lisboa, e investigador do College d'Études Mondiales na FMSH, em Paris"

Link directo: http://www.publico.pt/economia/noticia/uma-mosca-grega-na-sopa-europeia-1699381?page=-1

17/06/2015

O Cartoon do Dia






Relatos... Norberto Pires à revista Sábado

Aconselho a leitura... e para que não se percam os relatos, aqui fica o texto original:


"Este é o testemunho completo de Norberto Pires, ex-presidente da CCDR Centro, a denunciar como funcionam as pressões partidárias

Durou apenas cinco meses à frente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro. Este professor de robótica no departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, de 48 anos,  dá um testemunho sobre o que foi resistir às pressões partidárias. "Ninguém quer que você pense em nada", denuncia. Foi do PSD. É vereador da oposição na câmara de Condeixa. Depois de tudo o que viu, desfiliou-se. Eis o depoimento de Norberto Pires na íntegra. Na primeira pessoa:

"O primeiro choque que tive ao chegar à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Centro (CCDR) foi quando percebi que ninguém quer que você pense nada, nem que organize equipas. Querem apenas alguém que mantenha o status quo e que distribua o dinheiro.
Antes de assumir as funções de presidente da CCDR, no início de 2012, eu era presidente do conselho de administração do Iparque de Coimbra, um parque de ciência e tecnologia que tem como objectivo instalar empresas e atrair investimento estrangeiro e nacional. No fundo, é um acelerador de empresas. Sou professor de robótica no departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra.
O convite para a CCDR apareceu de forma difusa. Houve uma intervenção do primeiro-ministro, pois eu conhecia vagamente Pedro Passos Coelho antes chegar ao Governo, como apoiante das suas candidaturas. Sondaram-me na sequência do meu trabalho no Iparque e quem me nomeou foi a ministra Assunção Cristas. Durou apenas cinco meses, de Fevereiro a Julho de 2012. Nunca tinha tido cargos políticos, apesar de ter feito parte da comissão política distrital do PSD em Coimbra, com as minhas opiniões muito próprias. Filiei-me no PSD um dia depois de José Sócrates ganhar as eleições em 2005. Saí do partido em Dezembro de 2014.
Sempre recusei recrutar pessoas por causa da filiação partidária na CCDR, apesar de o partido o exigir. Queriam que eu demitisse Ana Abrunhosa, uma socialista que era vogal do Mais Centro, a entidade responsável pelo QREN [fundos europeus], que também dependia de mim. Quando entrei devem ter pensado: aquele tipo nomeado pelo PSD é um boy e faz o que o partido manda. Não foi assim.
Não conhecia isto na sua verdadeira extensão. Não é a corrupção. É uma certa influência que Lisboa tem sobre as pessoas e os cargos. O próprio Almeida Henriques, então secretário de Estado da Economia [seria depois eleito presidente da câmara de Viseu], exigia a demissão dela. Havia nomes sugeridos, soprados por terceiras figuras. Fui encontrá-la num gabinete asséptico. Já tinha arrumado tudo. Conversámos. Antes disso falei com o primeiro-ministro por SMS. Disse que não concordava com a demissão da senhora. Era absurdo. Ela era a responsável pelo QREN desde 2008, era a gestora principal do programa quadro. Se matássemos tudo o que lá estava, ficávamos sem histórico. O primeiro-ministro achou sensato. Mas a relação não correu bem. Ela acabou por me trair.
As pessoas têm de ser competentes, mas há uma regra: têm de ser leais. Das duas primeiras pessoas que nomeei, uma tinha estado ligada à Juventude Comunista e a outra era casada com um dos dirigentes do Bloco de Esquerda na região centro, o José Reis, que chegou a ser secretário de Estado do PS. Ela era a pessoa que mais trabalhava e que tinha ideias. Pu-la a coordenar o grupo de investimento do centro. Considerava aquilo fundamental. Foi um choque frontal com o status quo do partido. Quando entra um tipo conotado com uma área política, estão à espera que substitua toda a gente. Quando isso não acontece é anormal e as pessoas ficam desconfiadas. Nas instituições públicas os funcionários estão à espera da alternância nos lugares conforme o partido que está no poder.
As CCDR são encaradas como prateleiras. Encontrei pessoas com enormíssima competência ao nível estatístico ou na gestão do território, tudo emprateleirado. O que os partidos querem é tirar todas as direcções de serviços e meter novas, da sua cor. Não organizei nenhum concurso para as direcções de serviços e mantive as pessoas que já lá estavam. Ainda não havia lei-quadro [que define a estrutura das CCDR]. Quando a lei-quadro entrasse em vigor, caíam as direcções todas, mas, entretanto, enquanto estavam em funções, eu podia avaliá-las. No partido, achavam que era o momento de se fazerem as substituições porque depois quando fosse o concurso essas pessoas já tinham experiência para serem nomeadas. É uma forma de viciar os concursos. Diziam-me: "Só os outros é que são bons? Nos nossos não há ninguém que seja bom? É preciso substituir a tralha socialista..."
Havia lá os socialistas que foram nomeados politicamente e que saíram com as equipas de topo. Os que são funcionários das estruturas têm medo. Tive traições de pessoas que passavam informação. Quando desconfiava de alguém, passava-lhe informação e depois via quem era o responsável pela fuga. Mandei embora uma pessoa por causa disso. Passei a estar na mira da sede nacional do partido. Afinal quem é este gajo que não faz o que lhe mandam? Não aprovei certos projectos que cheiravam a esturro. Quando me pareciam estranhos, não os metia na agenda e empalhava. Chocou com enormes interesses, até de ministros…
A certa altura, quando o Governo estava a reduzir o número de Centros de Saúde e a refazer o mapa judiciário, o ministro-adjunto Miguel Relvas pediu um mapa das infraestruturas do Estado. A ideia de racionalização era boa, para haver uma partilha entre os concelhos. Eu decidi sugerir também a localização dos parques de ciência e tecnologia e dos parques industriais abandonados. Fomos apresentar o projecto no Conselho Regional do Centro [onde estão representadas as autarquias, empresas, universidades, etc.], que na época era presidido pelo Álvaro Amaro, então presidente da câmara de Gouveia.
Cinco minutos antes de começar, já eu estava sentado na mesa, recebo um telefonema do chefe de gabinete do secretário de Estado Afonso Paulo [do Ambiente] a dizer que estou proibido de apresentar o projecto Invest Centro. Mas porquê? Porque estas coisas tinham de ser coordenadas com o secretário de Estado. Eu digo que estou a cinco minutos da apresentação. E o chefe de gabinete diz: isto é uma ordem directa. O Almeida Henriques estava ao meu lado. Disse-lhe. E ele também mostrou desconforto.
Desobedeci. Achei que isto se enquadrava nas estritas competências das CCDR. Só não assinei os protocolos previstos com o AICEP porque tinha recebido uma ordem directa, mas apresentei o projecto. Não conhecia o poder dos chefes de gabinete. É um poder à parte. Comunicam todos uns com os outros.

Certa vez apareceu-me um presidente de câmara acompanhado por um empresário brasileiro que tencionava construir um hotel numa zona de reserva, o que implicava um estudo de impacto ambiental, com um campo de golfe com mais buracos do que o permitido. Foram pressionar-me para dar andamento ao processo, porque era um investimento que se ia perder. Eu disse que havia leis e regras a cumprir. O brasileiro explicou que precisava de um compromisso e eu respondi que não reduzia a qualidade nem a assertividade da avaliação. Reduzia os prazos ao mínimo legal de 60 dias, garantindo a assertividade máxima. O presidente da câmara contorcia-se. Não abriu a boca durante a conversa e estava constrangido. Aquilo era essencial para ele, um investimento que podia decidir eleições. Fez um papel um bocado triste. Para contornar o excesso de buracos no campo de golfe, o brasileiro argumentava: "Dividimos aquilo em quatro ou cinco campinhos e depois junta-se tudo". Eu disse-lhe: "O senhor é um artista". E ele respondeu: "Isto não tem nada de ilegal." Não queria acreditar: "Então o senhor não vê nada de ilegal nisto?" O projecto acabou por ter um estudo de impacto ambiental negativo.

Nessa época, outro artista chamado Rogério Gomes, que tinha criado o Instituto do Território [e agora é presidente do Gabinete de Estudos do PSD] que é uma coisa privada, não é um instituto, andou a dar entrevistas a dizer que as CCDR eram um buraco negro, um bando de incompetentes. Uns dias depois, Pedro Santana Lopes daria uma entrevista mais ou menos a dizer o mesmo. Então, escrevi um artigo noPúblico a responder. Recebi um telefonema do chefe de gabinete da ministra [Assunção Cristas] a dizer que posso escrever artigos, mas antes precisam de validação superior. Quando dei outra entrevista ao Jornal de Notícias a falar dos objectivos para a região centro, também recebi um telefonema do chefe de gabinete da ministra a dizer a mesma coisa. As minhas entrevistas causavam desconforto e tinham de ser coordenadas. Tinha de pedir autorização para dar as entrevistas. Penso que a reacção nem era da ministra, mas de outros secretários de Estado incomodados com o meu protagonismo.

Entretanto, apareço no Prós-e-Contras e não comuniquei que ia. Fui de forma pessoal, para falar da experiência do Inovparq e de inovação. Não ia em funções de CCDR nem aparecia o cargo no ecrã. Deu um brado enorme e recebi vários avisos a dizer que tinha intervenções que desagradavam aos membros do Governo.
Entretanto, houve uma cerimónia de assinatura pública, em Évora, do primeiro contrato assinado com o Jessica Holding Fund, que financia projectos de reabilitação urbana e de actividades económicas em cidades. Quando ia no carro, ligou-me o chefe de gabinete do secretário de estado Almeida Henriques a perguntar se eu podia enviar ao secretário de Estado as notas do que ia dizer, para não lhe tirar os soundbites. Então mandei as notas que ainda estava a preparar por SMS. Mas ele voltou a telefonar e a dizer que o secretário de Estado falava primeiro e depois eu. Até me ofereci para não falar, não havia problema. Quem fecha os eventos são os membros do Governo. Ele disse-me aquilo que o secretário de Estado ia dizer. Tudo bem. Acordo total. Mas houve um percalço e eu e o meu motorista enganámo-nos no local. Atrasámo-nos uns 15 minutos. Quando chegámos, o secretário de Estado já estava a falar.
Acho que ele decidiu falar primeiro para dizer as coisas todas antes. Houve mais telefonemas sobre protocolo, se ele se sentava à direita ou à esquerda... Fico onde vocês quiserem, disse eu.
Só que quando entro na sala ele já está a falar. Olho para a mesa e não vejo nenhum cartão com o meu nome. Faço-me de idiota. Vou para a mesa e sento-me no lugar onde dizia "Almeida Henriques". O homem ficou a olhar para mim. Deram de imediato a cerimónia por encerrada, porque ele não tinha sítio onde se sentar…
O Governo tinha nessa época a troika e o emprego em queda livre. Criaram então um programa para o emprego jovem e não havia dinheiro. Onde havia verbas era no QREN e já estavam em grande parte comprometidas. Era necessário fazer uma operação de limpeza de projectos que não tinham viabilidade para libertar os fundos. Ganhei um conjunto de inimigos ao tirar projectos a docentes universitários que não me perdoam. Analisei os contratos todos. Os presidentes das câmaras começaram a ver as coisas mal paradas para as eleições. Alguém tinha de assumir isto politicamente. Então, o secretário de Estado Almeida Henriques veio reunir-se com os 101 presidentes de câmara da região centro. Os autarcas mostravam algum desconforto por estarem a perder projectos.
A decisão política tinha de ser apresentada aos presidentes de câmara por Almeida Henriques. O que que fiz foi acertar com o secretário de Estado, antes da reunião, o que ia ser dito, para não haver surpresas e para nos coordenarmos. Chegou muito atrasado. Mais de uma hora. Por sugestão do chefe de gabinete, começou-se antes.
Quando Almeida Henriques chegou, como já estávamos a trabalhar, pedi ao vice-presidente da CCDR para o ir buscar à porta. O homem ficou pior do que estragado e fez saber a toda a gente que eu não o tinha ido receber. Também havia de sair nos jornais que eu tinha desrespeitado um secretário de Estado em termos protocolares.
Todos os presidentes de câmara estavam a fazer críticas. Até que o Álvaro Amaro, de Gouveia, se vira para nós e diz: "Tudo bem, acredito que as coisas estão a ser feitas desta forma. Mas livrem-se, livrem-se de me estar a enganar, que eu dou-vos um tiro, a si e ao secretário de Estado". Foi em tom jocoso, não era a sério.
Depois de o secretário de Estado intervir, eu digo que gostava de falar. O chefe de gabinete tem pressa. Abro o computador e projecto uma imagem de um quadro com as contas, para mostrar quais eram as consequências para a região e para determinados projectos, com um pequeno resumo. As pessoas tinham de ter consciência das consequências. O discurso do secretário de Estado era que tudo seria muito pacífico e que eu ia depois fazer com eles o trabalho de filigrana. Eu disse que fazia o trabalho de filigrana, mas as consequências seriam aquelas. Elencava os projectos que caiam. O secretário de Estado tentou abreviar aquilo, foi uma atrapalhação para eu não mostrar. Saiu mais uma vez irritado comigo. A reunião terminou sem mais discussão.
Enviei esse relatório a muita gente, ao primeiro-ministro, ao ministro da Economia, ao ministro da Ciência, a uma série de secretários de Estado de várias áreas. É de alguma maneira uma forma de ultrapassar o superior hierárquico.
Cerca de uma semana depois, a ministra Assunção Cristas chama-me para uma reunião. Quando vou a caminho de Lisboa, tento falar com o primeiro-ministro. Envio então uma mensagem a dizer que que vai acontecer a demissão. Telefona-me o chefe de gabinete do primeiro-ministro a dizer que que ele quer falar comigo, mas está na reunião com o Presidente da República. Ia ligar-me mais tarde, mas não ligou.
Passei duas horas à espera na antecâmara do gabinete da ministra. Não fiz mais nenhum contacto. Quando ela me recebeu, teve um lapsus liguae: tinha falado com o ministro-adjunto [Miguel Relvas], aliás, com o primeiro-ministro. Disse que as coisas são como são e que chegaram à conclusão de que eu não era a pessoa certa e que esta relação tinha chegado ao fim. Respondi que naquele dia não havia nada que me aborrecesse. Só tinha recebido dois telefonemas: um do chefe de gabinete do PM e outro da minha mulher a dizer que estava grávida…
Combinei que enviaria o pedido de demissão mal chegasse a Coimbra. Foi o que fiz. Entretanto seria nomeado para presidente da CCDR Centro o Pedro Saraiva [que será o deputado relator da comissão de inquérito do BES], que se demitiu quando foi decidido que estes lugares iam ser avaliados pela CRESAP e ele era contra. Achava que devia ser por nomeação e voltou ao Parlamento. Eu decidi concorrer ao lugar, porque queria demonstrar que era assim que se deviam nomear as pessoas. Os três seleccionados foram Ana Abrunhosa, António Queiroz… e eu. Mas foi nomeada a Ana Abrunhosa, que acabou por ser defendida pelas mesmas pessoas que antes exigiam a demissão dela.
Um ex-presidente de uma CCDR perguntou-me porque é que concorri e disse que entre os três era fácil escolher. "Tu saíste em choque. O outro [António Queiroz] tinha um problema [com a insolvência de empresas]. A única hipótese era ela". Ainda me disse que eu, ao concorrer, tinha tirado a possibilidade de um boy do PSD estar entre os três finalistas e ser escolhido. Uma das pessoas que eles queriam colocar terá ficado em quarto ou quinto lugar.
Hoje não recomendo a ninguém ser militante de um partido. São sítios de maus costumes. O que se aprende é que tendem a gerir as coisas de forma condenável. Nada tem a ver com ética nem a nada se pode aplicar a palavra ética."  "

Este artigo pode ser encontrado na revista Sábado, link original: http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/diziam_me_e_preciso_substituir_a_tralha_do_ps.html